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Maçã catarinense abre a safra 2026 com recordes, resiliência e um olhar estratégico para o turismo

Era calor, não frio. O sol forte da manhã de 30 de janeiro banhava os jardins do Hotel Renar, em Fraiburgo, quando o que se anunciava nos discursos era, ironicamente, o frescor de novos tempos. Ali, no coração do meio-oeste catarinense, a Abertura Oficial da Colheita da Maçã reuniu autoridades federais e estaduais, produtores, lideranças do setor e jornalistas de três estados para celebrar não apenas números — expressivos — mas a resiliência de uma cadeia que, após dois anos de adversidades climáticas, devolve ao mercado uma safra de qualidade excepcional.

Com produção estimada em 615 mil toneladas em Santa Catarina — estado que responde por mais de 50% da maçã nacional —, a safra 2025/2026 recoloca o Brasil no radar das exportações com fôlego renovado. Fraiburgo, sozinha, contribui com 1.781 hectares plantados e responde por cerca de 17% da produção estadual. Os números, porém, não contam sozinhos a história de um povo que fez da fruta identidade.

Safra tem produção estimada em 615 mil toneladas em Santa Catarina, estado que responde por mais de 50% da maçã nacional

O setor produtivo fala em retomada e confiança

Quem primeiro deu tom ao evento foi o presidente da Associação Brasileira de Produtores de Maçã (ABPM), Moisés Lopes de Albuquerque, ao definir a safra como símbolo de superação. “O que celebramos vai além de números. Esta safra representa a capacidade de adaptação e o trabalho incansável dos produtores”, afirmou. Segundo ele, a qualidade da fruta colhida em 2026 é excepcional: frutos maiores, coloração intensa, elevada sanidade. “Atributos que colocam a maçã brasileira entre as melhores do mundo, tendo o sabor como diferencial reconhecido internacionalmente.”

Moisés destacou ainda a expectativa de duplicar as exportações, ultrapassando 60 mil toneladas com destino a mais de 15 países. Lembrou um feito raro: o Brasil é o único país do mundo a erradicar a Cydia pomonella — praga quarentenária que por décadas ameaçou a pomicultura — resultado de um trabalho integrado entre governo federal, estadual, órgãos de fiscalização e o setor produtivo. Um esforço cujo impacto econômico, ao longo dos anos, é estimado em bilhões de reais.

O Congresso Nacional em defesa da cadeia produtiva

A bancada catarinense marcou presença com discursos firmes. O deputado federal Ismael dos Santos relembrou a articulação política que, nos últimos anos, impediu a entrada da maçã chinesa no mercado brasileiro a preços reduzidos. “Cerca de 100 mil empregos em Santa Catarina estariam ameaçados. Atuamos junto ao Ministério da Agricultura e vencemos essa batalha”, declarou, ressaltando a força da Frente Parlamentar da Agropecuária, a maior do Congresso.

Já o deputado federal Valdir Cobalchini assumiu compromisso público: “Levarei a Brasília as demandas do setor, especialmente em relação ao tarifaço imposto pelos Estados Unidos ao suco concentrado de maçã e à proteção do produtor nacional”. Cobalchini também exaltou Fraiburgo como “terra da maçã e polo agroindustrial” e fez questão de lembrar que o município sedia, em julho, a 19ª edição do Encontro Nacional sobre Fruticultura de Clima Temperado (Enfrute), consolidando-se como referência técnica para todo o país.

Governo federal e estadual alinhados ao campo

Representando o Ministério da Agricultura e Pecuária, o chefe da Divisão de Desenvolvimento Rural de Santa Catarina, Francisco Powell, anunciou uma força-tarefa para retomar a inspeção da maçã na origem. “União, Estado e iniciativa privada trabalharão de forma integrada para facilitar a logística, otimizar recursos e garantir certificação às exportações”, disse, referindo-se a uma antiga demanda do setor para evitar entraves burocráticos nos portos.

Pelo Governo do Estado, o secretário adjunto da Secretaria da Agricultura, Pesca e Pecuária, Admir Edi Dalla Cort, representou o governador Jorginho Mello. Em um discurso que mesclou técnica e vivência pessoal, Dalla Cort — que se apresentou também como produtor rural — destacou o modelo catarinense de gestão compartilhada. “Santa Catarina adotou um modelo de gestão compartilhada com os municípios porque é lá que o cidadão vive e que as políticas públicas precisam chegar. O governo tem atuado de forma integrada porque é no território local que o dia a dia acontece”, afirmou.

Ele defendeu políticas de médio e longo prazo para o agro, citando o protecionismo agrícola adotado por grandes potências. “Precisamos garantir melhores condições de crédito e mecanismos de proteção ao produtor rural. Falo não apenas como secretário, mas como alguém que conhece a realidade do campo”, declarou. Dalla Cort ainda fez questão de enaltecer o papel da Epagri e da Cidasc — “referências nacionais em pesquisa, extensão rural e defesa sanitária” — como pilares fundamentais para o patamar alcançado pelo agro catarinense.

Turismo, integração regional e o futuro para além da safra

A diretora de marketing, inovação e promoção da Secretaria de Estado de Turismo, Dirlei Barbieri Hofner, representou a secretária Catiane Seif e elogiou Fraiburgo como “exemplo de integração entre indústria, agricultura e turismo”. Reforçou a política de interiorização do turismo adotada pelo Estado e a estratégia de posicionar Santa Catarina como destino durante o ano todo. “O turismo de experiência no meio rural não é mais promessa: é realidade e gera resultado”, pontuou.

Falando em nome dos prefeitos da região, o prefeito de Concórdia, Edilson Massocco, defendeu o agronegócio como vetor de emprego, renda e qualidade de vida, e pediu maior descentralização de recursos e valorização do setor produtivo.

A voz de Fraiburgo: o prefeito Wilson e o caminho das quatro estações

O prefeito Wilson Ribeiro Cardoso Junior, que já vinha defendendo o casamento entre maçã e turismo, foi além. Em sua fala, revelou que a maçã responde sozinha por cerca de um quarto da movimentação econômica do município — e que, integrada à indústria, esse impacto cresce exponencialmente. Mas o que chamou atenção foi a visão estratégica apresentada.

“Foi a maçã que abriu caminho para o turismo. Agora, nosso trabalho é fazer com que Fraiburgo seja destino o ano inteiro, não apenas na colheita. Queremos o turista nas quatro estações”, afirmou. E completou: “Nenhum município se desenvolve sozinho. A união das cidades, cada uma com sua vocação, é o que fortalece a região. A Rota da Amizade é a prova viva disso.”

Wilson ainda destacou a importância do I Fórum de Turismo do Vale dos Imigrantes, realizado na véspera no Hotel Renar, como um marco para o setor. “Iniciativas como essa, conduzidas pela ABRAJET-SC, geram união, visibilidade e desenvolvimento. O turismo traz dinheiro novo para a cidade e renova nossa economia.”

O tradicional Michuim, servido nos jardins do Hotel Renar – Fotos Pierpaolo Nota

Michuim, torta de maçã e a colheita no pé

Encerrada a cerimônia oficial, autoridades e convidados foram recepcionados nos jardins do Hotel Renar com o tradicional Michuim, prato típico da gastronomia regional. A sobremesa ficou por conta da famosa torta de maçã do hotel, receita de família criada por Dona Gerda Frey Ziolkowski — que até hoje, 45 anos depois, segue encantando hóspedes e visitantes.

Visitação técnica na gigante Fischer

À tarde, a programação deixou o salão e foi para o campo. Nos pomares da Fischer, produtores, jornalistas e lideranças experimentaram, literalmente, o sentido da abertura da colheita: colher a própria maçã do pé. Em seguida, uma visita técnica ao packing house da empresa revelou a tecnologia de ponta empregada na classificação, armazenamento e expedição da fruta — um contraste sofisticado entre a tradição do campo e a inovação da agroindústria.

Fraiburgo, mais uma vez, mostrou que a maçã catarinense não alimenta apenas o Brasil. Alimenta também uma economia, uma identidade e um projeto de futuro. E, sob o sol de verão, deixou claro: a safra é agora, mas os frutos — doces, firmes e cada vez mais globais — são para o ano inteiro.

O jornalista Pierpaolo Nota viajou para cobrir o evento a convite da Abrajet-SC.

 

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